The measure of a life is a measure of love and respect,
So hard to earn so easily burned
In the fullness of time,
A garden to nurture and protect.1
The garden. Clockwork Angels, 2012.

Depois de uma pausa de onze anos (que tinha tudo para ser definitiva), o Rush voltou aos palcos. Foi um evento de tal magnitude, que praticamente todos os veículos do mundo da música escreveram a respeito disso. Não sou nenhuma Rolling Stones, mas também gostaria de fazer uma breve reflexão sobre a dor do luto e a volta da banda.
Tratando-se de um dos dinossauros do rock, é bem possível que os mais jovens não saibam muito sobre a trajetória da banda. Então comecemos daí.
Ainda que tenha sido formada em 1968, a banda só chega a sua formação clássica em 1974, quando Neil Peart (figura central para nossa reflexão) assume as baquetas. Sua chegada era o que faltava para o Rush se tornar aquilo que se tornou. Não só era um músico extremamente habilidoso, mas também um excelente escritor; não por acaso, se tornou o principal letrista da banda.
E assim, durante quarenta anos, o trio canadense construiu uma sólida carreira e uma base de fãs apaixonados. Paixão que também era resultado da profunda amizade que os três demonstraram durante todo esse tempo.
Infelizmente, em janeiro de 2020, todos foram surpreendidos com a notícia da morte de Peart. Por mais de três anos, ele enfrentou silenciosamente uma batalha contra um câncer no cérebro. Por vontade sua, as poucas pessoas que sabiam da situação se esforçaram (por vezes, valendo-se de mentiras) para que ninguém suspeitasse do problema.
Esse silêncio doloroso foi prolongado pela pandemia de coronavírus, que impediu uma justa despedida. Se para os fãs era difícil lidar com essa perda, imagine para Alex e Geddy, que, de fato, haviam vivenciado tudo isso.
Tudo parecia indicar que esse seria o fim definitivo da banda. Um final triste e melancólico.
As coisas começam a mudar em 2022, quando participaram de uma homenagem ao baterista Taylor Hawkins. E pelo que já disseram em algumas entrevistas, voltar aos palcos os lembrou de como era divertido ser o Rush, como aquilo que haviam feito junto com Peart durante quarenta anos era bom.
E aqui chegamos ao ponto. Terminar de forma amarga não seria justo com toda a história musical que haviam construído. Transformar o luto em forma de vida tornaria a lembrança da amizade com Peart uma fonte constante de dor.

É justamente nesse ponto que queria chegar. Há alguns anos, me deparei com uma situação parecida. Por mais de uma década, tive como parceiro um cachorro chamado Odie, um bom e velho caramelo. Certo dia, com dezoito anos, a doença chegou. Foram três meses lutando, mas não havia como ganhar. Perdemos.
Seis meses depois, nos despedíamos do Anúbis, o vira-lata preto companheiro do Odie. Uma despedida dolorosa. Estava tudo certo, exceto pelo câncer descoberto ao acaso. Enfim, restava a tristeza.
Não sei dizer ao certo qual livro ou texto estava lendo na época que me levou a perceber a injustiça que estava cometendo. Certamente, a tristeza também deve ter seu espaço, afinal “tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo propósito debaixo do céu”. Para alguns pode durar mais para outros menos, mas ela não pode durar para sempre, a alegria deve vir pela manhã.
Prolongar a dor do luto não é justo com aqueles que tanta alegria trouxeram para nossos dias. Em algum momento, as lágrimas devem ser acompanhadas por um sorriso de saudade.
Sentimos falta do Neil, sinto falta dos meus peludos. Não porque que sejam motivo de sofrimento, mas porque trouxeram muita alegria.
30 de julho de 2020 | Despedida para o Odie
Quando você chegou, eu tinha 23 anos. Nem ao menos tinha terminado a faculdade… Tínhamos acabado de alugar uma casinha perto da USP e começado uma nova fase da vida.
Nossa primeira casa era pequenina, mas quando os dois começaram o mestrado e o dinheiro melhorou um pouco, mudamos para uma casa um pouco melhor. Fizemos bastante bagunça por lá.
Como a gente morava do lado da USP, no domingo aqueles gramados eram todos nossos.
Enquanto estávamos na França, você fez um novo amigo na casa da minha vó. Quando a gente voltou para o Brasil nos reencontramos. A casa era pequena, mas a gente se divertiu.
Não demorou muito e fizemos algumas mudanças importantes. Deixamos São Paulo e mudamos para Avaré. Além disso, agora o Anúbis também fazia parte da família. A vida ficou bem mais interessante no interior. Não tinha grama, mas tinha muito mais espaço para correr.
Mas assim que a casa se tornou nossa, resolvemos o problema da grama. Parece que você gostou.
O tempo parecia não passar para você. Sempre tão ativo. É verdade que já não enxergava nem ouvia tão bem, mas adorava andar pra lá e pra cá e cavar buracos. Era só felicidade.
Você sempre esteve ao meu lado. Quantas não foram as vezes que esperou eu terminar meu banho na porta do banheiro? Não teve uma única vez nesses anos todos que você não estava do meu lado sempre que me sentava para trabalhar ou ler.
Nos últimos 3 meses as coisas mudaram um pouco. Você ficou doente. Lutou bastante (mostrou toda a força de um vira-lata caramelo), mas não conseguimos vencer dessa vez.
Hoje faz uma semana que você foi embora.
Durante esses meses, ouvi de todos os veterinários que nos ajudaram que o que fizemos por você foi muito bonito, que poucas pessoas se esforçam tanto. Sinceramente, como eu poderia deixar você ir sem tentar fazer todo o possível para curá-lo? Como eu poderia deixar um membro da família (meu companheiro) sem ajuda?
Você foi o melhor cachorro que alguém poderia querer.
Muito obrigado!
15 de maço de 2021 | Despedida para o Anúbis
O começo da vida não foi fácil para você. Abandonado na rua tremendo com cinomose. Por sorte, o pessoal do Patinhas Online te encontrou e cuidou de você. Apesar dos cuidados, uma ONG não é o lugar ideal para se viver. O passeio só acontecia uma vez por mês, quando os voluntários apareciam.
E foi justamente em um desses passeios que a gente se conheceu. Duas semanas antes de nos mudarmos para Avaré, fomos te buscar.
Assim que chegamos em Avaré tudo mudou, parece que você finalmente tinha entendido que a vida tinha mudado. Mal havíamos esvaziado o caminhão da mudança e você já era o melhor amigo do Odie e estava super à vontade na rampa do quintal.
Não demorou muito e você entendeu que não precisava competir pela comida com o Odie. Não só isso, também descobriu como gostava de um pãozinho. Além do quintal, onde poderia tomar todo o sol que quisesse, ainda tinha uma casinha só para você.
Puxa! Como você gostava da sua casinha…
Até mesmo a sequela da cinomose desapareceu depois de uns anos. Sempre achei que foi resultado da “fisioterapia natural” que você fazia no quintal.
Há alguns meses, quando o Odie foi embora, você estava aqui. Mas aí, qual não foi nossa surpresa quando fomos cuidar de seus dentes e descobrimos uma massa no seu fígado.
Puxa! Não esperávamos por essa! Você estava super bem, cheio de energia.
E assim continuou nos próximos meses, ninguém diria que havia algum problema. Mas ele estava lá.
E nós tentamos. Se o começo foi marcado pelo abandono, o final não foi. Tentamos todos os tratamentos existentes. Mas era uma doença complicada. E ela resolveu se manifestar.
Hoje faz uma semana que você foi embora. A casa ficou vazia. Parece que a morte nos trapaceou e você foi antes da hora.
Costumávamos dizer que você era um cachorro grato, sempre agradecido por qualquer pequeno agrado.
Hoje as coisas se inverteram.
Muito obrigado pela felicidade dos últimos anos!
- A medida de uma vida é uma medida de amor e respeito
Tão difícil de ganhar, tão fácil de queimar
Na plenitude dos tempos
Um jardim para nutrir e proteger. ↩︎
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